Agrofloresta

ÁREA DE EXPERIMENTAÇÃO AGROFLORESTAL

VISÕES, INQUIETAÇÕES E PROJEÇÕES

COLETIVO NEOS

por Rodrigo Giovannetti

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Sertão Ubatumirim – ponte do balanço

Introdução

*contextualização da agricultura no Brasil

(VISÃO – base filosófica)

Historicamente a paisagem no Brasil vem sendo modificada, por diferentes maneiras, desmatamentos, queimadas, pecuária, mineração, rodovias, agricultura e próprio mecanismo de colonização do País desde 1500. Após a revolução verde, meados dos anos 60-70, ponto marcante para agricultura, foi à quebra da agricultura tradicional por mecanização, insumos e agentes agrícolas para uma agricultura em escala de monocultivo.

A abertura da agricultura brasileira ao comércio internacional foi feita através da concentração dos “instrumentos” da Revolução verde e a favor de certos produtos e concentrando nas mãos de alguns produtores e de regiões que apresentavam as melhores condições, para provocar o efeito de impulsão desejado sobre o mercado exportador. Como consequência houve o êxodo crescente de grandes contingentes de trabalhadores e de habitantes rurais, concentração elevada de terras e de certos meios de produção, na diminuição da qualidade biológica dos produtos agrícolas, nas perdas dos meio de subsistência, nos mercados cada vez mais concentrados, além das externalidades do modelo de desenvolvimento vigente que inclui a exploração econômica da natureza, a degradação ambiental, a desigual distribuição social dos custos ecológicos e a marginalização social.

A fatalidade do nosso tempo se expressa na negação das causas da crise sócio ambiental e nessa obsessão pelo crescimento que se manifesta na ultrapassagem dos fins da racionalidade econômica. Racionalidade pode ser entendida como um sistema complexo de ideologias, valores, práticas, comportamentos e ações. Acrescenta-se a isso, a importância que foi dada ao futuro, constituindo uma ruptura, às vezes simplesmente de ordem prática, mas regularmente política e ideológica, com o passado e as tradições. Sendo os valores tradicionais, o sentido de enraizamento, equilíbrio, pertença, coesão social, cooperação, convivência e solidariedade. Trazendo uma pobreza crítica e degradação ecológica, que estão intimamente associadas à imposição de modelos tecnológicos e projetos de colonização aplicados no Brasil.

A emancipação do homem através da razão converteu-se em alienação. Como a indústria, a agricultura evolui na direção de um “regimento ditatorial dos números”. Nem tudo, no entanto, pode ser calculado, medido, reduzido a um valor de mercado, representável nos códigos do capital. Essa imprevisão remete ao mesmo tempo à questão da hegemonia do mercado. Existem processos ecológicos e valores humanos impossíveis de serem reduzidos ao padrão de medida do mercado, por não levar em conta o significado que as coisas fazem para cada um. Homogeneíza a realidade. Além dos preços de mercado serem sinais falsos da escassez de recursos e do potencial da natureza, não podem servir de indicadores para uma determinação racional dos fatores produtivos nem para internalizar os custos das externalidades ambientais. Esta “produção de pobreza” resultante da globalização do mercado esteve associada a um processo de destruição de identidades culturais, desarticulação do tecido social e desmantelamento dos atores coletivos.

Porém, à medida que os diferentes grupos e atores sociais questionam a modernização, tanto na esfera agrícola como na sociedade global, a precariedade e a fragilidade do sistema aparecem com maior nitidez, tendendo a revalorizar a responsabilidade social no que tange à construção do futuro. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. O homem pré-moderno via seu destino pendente de forças desconhecidas e incontroláveis. O homem moderno, em seu afã de controlar a natureza através da ciência e da tecnologia, ficou preso por uma racionalidade e por processos que dominam sua vida, mas ultrapassam sua capacidade de decisão e entendimento. Desde que isto está sendo exposto, o futuro é percebido e afirmado como a construção coletiva por excelência, motivando as aspirações à autonomia, à cidadania, à democracia e à justiça social.

Toda a ação produz um sentido, e esse será novo, sobrepondo o antigo. A ação se define como sendo uma prática situada no quadro de uma relação social e orientada para a manutenção, transformação ou revolução de um ou de vários elementos constitutivos de um sistema social. Na área rural, essas idéias e proposições contestadoras têm, em comum, o fato de tenderem a repensar a relação da agricultura e o espaço rural – e daqueles que nele vivem e trabalham – com o meio ambiente natural e seus recursos. Isso permite elaborar e afirmar um tipo de discurso cujos princípios gerais giram em torno da maneira de utilizar esses recursos no meio agrícola e rural.

Criando um espaço para as ações coletivas e os atores sociais lutarem por uma agricultura “alternativa” ou “diferente” (ou repensar a agricultura vigente), ou propor uma nova forma de modernização agrícola e rural. Segundo o Projeto CETAP, defensor da agricultura alternativa, hoje mais propriamente denominada agricultura sustentável, a tecnologia aparece como a ferramenta indispensável para o avanço das lutas populares, seja do ponto de vista da obtenção de melhores condições de resistência nas terras, ou do debate sobre as alternativas de poder nos setores já explorados.

Os adeptos de tal agricultura definem eles próprios, as técnicas e os procedimentos que vão utilizar em função da disponibilidade dos recursos e das necessidades locais. Os interessados vão tomando consciência das possibilidades que lhes permitirão realizar, eles próprios, seu futuro, seja no plano específico do trabalho ou em nível sócio-econômico e cultural mais amplo.

De modo geral, os grupos que estão desenvolvendo meios de produção buscando a sustentabilidade, se caracterizam por:

  • Determinar uma relação mais estreita e mais equilibrada entre o meio ambiente natural e aquele criado pelo homem;

  • Beneficiar a diversidade social, econômica, ecológica e cultural;

  • Promover a criação e a gestão de sistemas de produção que buscam um maior engajamento pessoal e uma produção mais direta, promovendo uma maior autonomia no plano produtivo;

  • Conduzir à construção de um futuro, no qual os indivíduos sejam livres e possam construir uma sociedade verdadeiramente autônoma e democrática.

Este projeto visa também desenvolver uma sensibilidade para a preservação do meio ambiente entre técnicos e os pequenos agricultores familiares das redondezas que serão atendidos pela área de experimentação agroflorestal em Ubatuba, Sertão do Ubatumirim, que iniciará a produção de agricultura ecológica, por meio de agrofloresta, busca encorajar a organização dos atendidos em associação para a produção, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas. Pois essa reflexão sobre o ambiente deve ultrapassar os limites do sistema no qual se desenvolve a ação.

Na América Latina o conceito de sustentabilidade está sendo construído como um potencial produtivo que emerge da integração sinergética de processos ecológicos, culturais e tecnológicos. A noção de ambiente é constituída por um sistema complexo, só possível através da articulação de diversas ciências e do amálgama de diversos saberes. É, portanto, um projeto social e político que oferece novos princípios aos processos de democratização da sociedade que induzem à participação direta das comunidades na apropriação e transformação de seus recursos ambientais.

É necessário construir uma racionalidade social e produtiva que, reconhecendo o limite como condição de sustentabilidade, funde a produção nos potenciais da natureza e da cultura. Entretanto, temos apenas uma orientação dessa nova ordem que está surgindo e que nos aponta para alguns caminhos que são:

  • Sustentabilidade ecológica

  • Democracia participativa

  • Racionalidade ambiental (Produtividade da natureza)

  • Necessidade das comunidades e de seus conhecimentos sobre o meio e seus recursos;

  • Condições de apropriação de seu ambiente como meio de produção de seu ambiente como meio de produção e do produto de seus processos de trabalho;

  • Assimilação da ciência e da tecnologia moderna e suas práticas tradicionais;

  • Respeitar suas identidades culturais.

A partir de uma visão ecossistêmica da produção, a economia ecológica busca subsumir a economia dentro da ecologia, considerada esta como uma teoria mais abrangente, a ciência por excelência das inter-relações. Introduzindo um conjunto de critérios, condições e normas ecológicas a serem respeitadas pelo sistema econômico. Capacitando as pessoas ao pleno exercício da cidadania, através da formação de uma base conceitual abrangente, técnica e culturalmente capaz de permitir a superação dos obstáculos à utilização sustentada do meio. O direito à informação e ao acesso às tecnologias capazes de viabilizar o desenvolvimento sustentável, que constitui assim, um dos pilares desse processo de formação de uma nova consciência em nível planetário, sem perder a ótica local, regional e nacional. Criando as bases para a compreensão holística da realidade.

Pensar de forma integrada e multivalente os problemas globais e complexos, assim como a articulação de processos de diferentes ordens de materialidade. Deste modo, o conceito de ambiente penetra nas esferas da consciência e do conhecimento, no campo da ação política e na construção de uma nova economia. Precisamos ecologizar a economia, a pedagogia, a educação, a cultura, a ciência etc. Hoje a questão ecológica tornou-se eminentemente social.

O desenvolvimento espetacular da informação quer no que diz respeito às fontes, quer à capacidade de difusão, está gerando uma verdadeira revolução, que afeta não apenas a produção e o trabalho, mas principalmente a educação e a formação. Iniciando um processo permanente no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem o conhecimento, os valores, as habilidades, as experiências e a determinação que os tornam aptos a agir – individual e coletivamente – e resolver problemas ambientais ou não, presentes e futuros. O processo deve ser contínuo e direcionado para uma visão multi, inter e transdisciplinar.

Através da mobilização e da conscientização dos envolvidos, a Área de Experimentação Agroflorestal pretende incluir todos nas discussões sobre a realidade do ambiente que estão inseridos. “Ampliando os seus horizontes” ao mesmo tempo em que será incentivado o “olhar do estrangeiro” em sua própria cidade. Incluindo nas discussões como estamos inseridos na sociedade atual e como podemos interferir de modo a melhorar a qualidade de vida. A partir da restauração da Mata Ciliar, trato do solo, cuidado com água, produções orgânicas com Sistemas agroflorestais, desenvolver alternativas à conservação do ambiente e desenvolvimento sustentável da Unidade de produção (área de experimentação agroflorestal). Além de fomentar a organização associativa entre os produtores agrícolas para que juntos possam discutir a realidade e buscar construírem juntos soluções para os problemas encontrados.

A emancipação sócio ambiental e o desenvolvimento de uma nova economia de mercado se fazem urgentes, diante dos gráficos que apontam a diminuição da população rural no País e no sudeste as analises são mais graves, por outro lado, já é sabido que a agricultura de base familiar corresponde em até 70% dos alimentos que chegam as mesas dos brasileiros. Novos modelos de sustentar agricultura se fazem por criar novas economias, que se depara com necessidades de se relacionar com novos valores. Se trabalharmos a natureza e esta é invalorável, como valorar produtos oriundos deste processo energético homem – natureza. A crescente diminuição da população rural se dá pelo processo feudal de economia, o conceito de propriedade privada, a revolução verde vigente no país com seus produtos e insumos e é assim que os modelos de pobreza devastam nossa população rural, suas culturas e ambiente.

As atuais crises econômicas planetárias se dão a partir de valores monetários distorcidos oriundos de politica econômica decadente, diante de seus próprios mecanismos se mostram insuficientes para uma nova realidade. As taxas, juros, previdência, desmoralizam as relações homem – natureza e precisam de um novo enfoque, necessita além de identificar, necessita coragem para a mudança do paradigma econômico. Afim de não sermos mais marionetes do processo econômico e sim parte dele. Se faz necessário o olhar de dentro, assim conseguimos mover conceitos sobre poder e controle para autonomia do processo econômico, criando uma economia viva onde somos sujeitos ativos neste processo.

[…] natureza existe, mas o valor surge somente pelo trabalho na natureza, quando natureza e trabalho se encontram. E valor surge pelo trabalho, quando este se move em direção ao capital ou ao espírito. E por isso surge a tendência a regressar novamente à natureza. Isso pode ser impedido evitando-se que o capital excedente seja fixado em terras, e sim seja transferido para empreendimentos espirituais livres onde desaparecerá, com exceção de um pequeno resto que deve ser preservado como semente para a manutenção do processo econômico. (STEINER)

Diante da reflexão acima de Steiner podemos mergulhar em novas fronteiras para a construção desta nova economia. Fundamentada na relação homem – natureza e assim, toda energia canalizada no trabalho na terra possa ser a transformação de novos processos econômicos que legitimam e valorizam a energia transformadora do ambiente consciente e da interpretação da natureza realizada pelo homem a partir desta nova agricultura, na formação de processos econômicos autênticos.

Depois de um século da publicação do livro de Steiner “Economia Viva” nos anos 80 sua obra foi revisitada e surge nos Estados Unidos o programa CSA (communitys supported agriculture) que em tradução geral significa, Comunidades que apoiam agricultura. O reaviva mento desta nova economia se dá por observar de dentro para fora a economia, nos torna responsável em realizar e assumir esta nova abordagem. Onde “valor” e “preço” são baseados em necessidades humanas e não em nichos mercadológicos.

Com esta nova abordagem a Área de Experimentação Agroflorestal do Coletivo Neos tem como objetivo, produzir a partir de inovação técnica no trato da terra, experimentar novos consórcios e produção agroflorestal, em um processo inclusivo das comunidades tradicionais do entorno e apresentar para técnicos e agricultores processos, modelos, estratégias e experiências de sucesso.

Ubatuba – Dados Gerais

A cidade de Ubatuba está localizada no litoral norte do Estado de São Paulo, distante 250 km da capital. Limita-se ao norte com o município de Parati (Rio de Janeiro), ao sul com Caraguatatuba (SP), a oeste com CunhaSão Luiz do Paraitinga e Natividade da Serra (SP) e a leste com o Oceano Atlântico, achando-se na latitude 23°26’21” e longitude 45º04’16” W com território de 713km2. A cidade é cortada pelo Trópico de Capricórnio, que atravessa a cidade e é palco da chegada do solstício de verão.

Ubatuba é cercada pela Serra do Mar e sua exuberante Mata Atlântica. Quase oitenta por cento do território da cidade de Ubatuba consiste em áreas de preservação. O Parque Estadual da Serra do Mar, criado para proteger e preservar a mata atlântica tem três núcleos dentro de Ubatuba: Cunha-IndaiáSanta Virgínia e Picinguaba.

O clima é o tropical litorâneo úmido ou tropical atlântico, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano, sem estação seca e com mês mais frio, possuindo temperatura média acima de dezoito graus centígrados. A cidade tem um clima chuvoso, com precipitação média anual de 2 600 milímetros.

A floresta atlântica litorânea em Ubatuba é muito particular devido as confluências de montanhas, a proximidade do mar com as escarpas rochosas

Planejamento

O planejamento tem como finalidade organizar os processos de plantio, manutenção, colheita, produção, venda e projetos diversos com consonância com a proposta.

Agrofloresta sucessional, compreende o conhecimento da ecologia, botânica, agronomia, e observação da natureza. Este ponto deve ser ressaltado pois a sensibilidade para observação dos processos naturais estão cada dia mais distantes das vidas das populações humanas. A partir de estudos e vivencias do agricultor e pesquisador Ernest Gotsh.. suíço erradicado no Brasil a mais de 30 anos, organiza conceitos e praticas milenares de povos tradicionais em um arranjo surpreendente de observação de processos naturais através da pratica/ cultivo agrícola.

Relações como densidade x diversidade x tempo se dá por meio da arquitetura da planta, origem natural (biogeografia) e necessidades orientadas pela função deste organismo no meio integral e complexo (Teoria de Gaia).

Em particular esta prática agroflorestal é designada como restauradora de terras degradadas, com diversas experiências de sucesso no cerrado e semi arido no brasil, europa, estados unidos e australia. Em Ubatuba o panorama é outro, o processo natural de sucessão ecológica, auxiliado pelo banco de sementes do solo e os 80% de floresta atlântica orienta as praticas agrícolas.

 

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